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Aja Anadecon · 24 de fevereiro de 2026

O feminicídio como colapso do poder

Atualizado em 23 de fevereiro de 2026 13:37 Thaís Cohen Chalub O feminicídio bate recorde no Brasil. Dizer isso é admitir que o "nunca mais" está chegando tarde demais no nosso país. Em sete de cada dez casos, as vítimas sequer possuíam medidas protetivas. O dado expõe uma verdade dura: a fronteira entre a vida e a morte é, muitas vezes, invisível. Esse aumento revela que, enquanto o mundo avança, o lar brasileiro ainda é cenário de um controle arcaico que, ao perder força, escolhe matar. O...

Por AJA ANADECON

O feminicídio como colapso do poder

Atualizado em 23 de fevereiro de 2026 13:37

Thaís Cohen Chalub

O feminicídio bate recorde no Brasil.

Dizer isso é admitir que o "nunca mais" está chegando tarde demais no nosso país.

Em sete de cada dez casos, as vítimas sequer possuíam medidas protetivas.

O dado expõe uma verdade dura: a fronteira entre a vida e a morte é, muitas vezes, invisível.

Esse aumento revela que, enquanto o mundo avança, o lar brasileiro ainda é cenário de um controle arcaico que, ao perder força, escolhe matar.

O feminicídio é o ponto final de uma cadeia longa de falhas — culturais, institucionais, simbólicas.

É quando o Estado chega tarde; quando a sociedade normalizou sinais prévios; quando a palavra não foi suficiente porque nunca foi ensinada como alternativa à força.

Talvez a pergunta mais honesta não seja "por que as mulheres estão morrendo?", mas outra, mais incômoda:

por que ainda há homens para quem perder o controle é mais intolerável do que perder a própria humanidade?

Há violências que não nascem do excesso de força, mas do colapso dela.

Os vídeos e notícias de agressões e assassinatos que atravessam nossas telas não são apenas crimes contra mulheres.

São sintomas de uma estrutura antiga que já não consegue se sustentar pacificamente.

Durante séculos, a organização social foi clara.

O poder tinha forma, gênero e lugar.

Era masculino, público, normativo.

Não precisava se justificar.

À mulher cabia o espaço do privado, do cuidado e do silêncio.

Essa arquitetura se manteve pelo hábito, pela religião, pelo direito, pela moral.

Funcionava porque parecia natural — e, por isso mesmo, não era questionada.

Mas estruturas de poder só permanecem estáveis enquanto são aceitas como inevitáveis.

O que vemos hoje não é uma "crise da família", nem a "perda de valores", como se repete por aí.

É algo mais profundo: a perda de legitimidade de um modelo de autoridade que não acompanhou a transformação do mundo.

As mulheres mudaram de forma contínua.

Entraram no mercado de trabalho, no direito, na política, na linguagem pública.

Nomearam violências antes invisíveis.

Passaram a dizer “não” onde havia silêncio.

Reivindicaram autonomia onde antes havia apenas tolerância.

E, sobretudo, deixaram de aceitar o sofrimento como destino.

Essa mudança não é apenas econômica ou cultural.

É simbólica.

Ela desloca o eixo do poder.

O problema é que nem todos evoluíram no mesmo ritmo.

Há homens que se transformam junto com esse processo.

Mas há outros que permanecem ancorados em um modelo de masculinidade baseado no controle — da mulher, da casa, do afeto, da narrativa.

Para esses, a autonomia feminina não é convivência: é ameaça.

Aqui está um ponto central para compreender o feminicídio.

Não se mata apenas por ódio; muitas vezes se mata por colapso simbólico.

Quando a mulher deixa de obedecer, de permanecer, de aceitar, de “pertencer”, ela rompe não só uma relação, mas uma lógica inteira de mundo.

E quem não construiu outro repertório de identidade tenta restaurar, pela força, aquilo que já perdeu em legitimidade.

O feminicídio é, muitas vezes, um gesto desesperado de restauração de poder.

O ciúme é a superfície.

O que está abaixo é a desautorização.

A percepção — ainda que inconsciente — de que a hierarquia não funciona mais.

De que o “lugar” que garantia status e identidade se dissolveu.

Aqui reside uma das grandes falhas estruturais do nosso tempo: transformamos o papel da mulher sem promover, na mesma medida, uma reconstrução social da masculinidade.

Abrimos, corretamente, caminhos para a autonomia feminina, mas deixamos um vazio do outro lado. Um vácuo que, em contextos de desigualdade e ausência de políticas públicas, se converte em violência.

A violência não surge do nada.

Ela se alimenta de frustração, perda de sentido, sensação de descarte.

Em uma sociedade que ainda associa valor masculino a domínio e controle, perder o controle vira humilhação.

E, para alguns, a humilhação é insuportável.

O aumento do feminicídio no Brasil precisa ser lido como efeito colateral de uma transição histórica mal acompanhada.

Não como simples reação ao avanço das mulheres, mas como incapacidade de lidar com esse avanço sem recorrer à força.

Isso não explica para justificar.

Explica para responsabilizar melhor.

Porque a resposta não está apenas no endurecimento penal — embora necessário.

Está também na educação emocional, na reconstrução de modelos de masculinidade, na proteção efetiva às mulheres em ruptura de vínculos e, sobretudo, no reconhecimento de que a violência de gênero é uma disputa de poder em um mundo onde o poder está mudando de forma.

Enquanto essa questão não for enfrentada com seriedade, seguiremos tratando apenas os efeitos, nunca as causas.

E uma sociedade que não compreende as causas da própria violência está condenada a repeti-la com novos nomes, mas com a mesma dor.

o link: https://www.migalhas.com.br/coluna/direitos-humanos-em-pauta/450417/o-feminicidio-como-colapso-do-poder

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